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Dr. José Ricardo Scandiuzzi – Cardiologista em São Paulo – SP

Arritmia é uma alteração do ritmo do coração. A fibrilação atrial é um de seus tipos e pode causar palpitações, cansaço e falta de ar — ou passar despercebida. [1,2]

Coração disparado significa ansiedade? Um relógio com alerta de pulso irregular confirma alguma doença? Neste artigo, você vai entender o que investigar e quando não é seguro esperar por uma consulta.

O que é arritmia cardíaca?

O coração possui um sistema elétrico que coordena seus batimentos. Uma arritmia acontece quando há uma alteração na formação ou na condução desses sinais. O ritmo pode ficar acelerado, lento ou irregular, dependendo do problema identificado.[1]

Existem diferentes tipos de arritmia. Alguns exigem apenas acompanhamento; outros precisam de tratamento específico. A importância de uma alteração depende de sua origem, frequência, duração, dos sintomas e da presença de outras doenças do coração.

Entre os exemplos estão:

Extrassístoles – batimentos que surgem antes do momento esperado e podem parecer uma falha ou um salto.

Taquicardias – ritmos acelerados, que podem ter diferentes origens.

Bradiarritmias – alterações que tornam o ritmo lento ou provocam pausas.

Fibrilação atrial – uma arritmia que afeta as câmaras superiores do coração.

Uma frequência baixa em uma pessoa treinada pode ser normal. Da mesma forma, o coração acelerar durante o exercício é uma resposta esperada. O número de batimentos, isoladamente, não define uma doença.[1]

O que é fibrilação atrial?

Na fibrilação atrial, também chamada de FA, a atividade elétrica dos átrios fica desorganizada. Os átrios são as câmaras superiores do coração.

Essa alteração geralmente produz batimentos irregulares, que podem estar rápidos ou apresentar frequência próxima do habitual.[2]

Os episódios podem aparecer e desaparecer ou permanecer por períodos prolongados. Algumas pessoas percebem exatamente quando o ritmo muda. Outras descobrem a condição durante uma consulta ou um exame feito por outro motivo.

A fibrilação atrial merece atenção porque pode favorecer a formação de coágulos dentro do coração e aumentar o risco de acidente vascular cerebral, o AVC.

Também pode comprometer a capacidade de esforço e, em certos casos, a função cardíaca.[2]

Isso não significa que todas as pessoas terão complicações. Significa que o acompanhamento deve avaliar tanto o conforto do paciente quanto a prevenção. Sentir poucos sintomas não é suficiente para concluir que o risco é baixo.

Coração acelerado: é ansiedade ou arritmia?

Palpitação é um sintoma, e não um diagnóstico. É a percepção dos próprios batimentos, descrita como coração disparado, tremor no peito, batidas fortes ou sensação de falha.

Essa percepção pode ocorrer mesmo quando o ritmo está normal.

Ansiedade, febre, esforço e noites mal dormidas podem aumentar a frequência ou tornar os batimentos mais perceptíveis. Entretanto, atribuir episódios repetidos à ansiedade sem uma avaliação pode atrasar o reconhecimento de uma alteração do ritmo.

Além das palpitações, algumas arritmias podem causar:

  • Cansaço fora do habitual.
  • Falta de ar.
  • Tontura ou sensação de desmaio.
  • Redução da tolerância aos esforços.
  • Desconforto no peito.
  • Desmaio.

Se os episódios voltam, duram mais tempo ou mudam de padrão, procure orientação.

O que pode causar fibrilação atrial?

A chance de desenvolver FA aumenta com a idade, mas a condição também pode ocorrer em adultos mais jovens. Hábitos, doenças associadas e características do próprio coração influenciam esse risco. Nem sempre existe uma causa única.[4]

Entre os fatores relevantes estão pressão alta, obesidade, diabetes, apneia do sono, doenças das válvulas e insuficiência cardíaca. Consumo elevado de álcool e tabagismo também merecem atenção durante a avaliação.[4]

A pressão alta pode provocar mudanças na estrutura do coração ao longo do tempo. Por isso, controlá-la faz parte do cuidado com quem tem fibrilação atrial, mesmo quando a pessoa não sente palpitações.

O médico também pode investigar alterações da tireoide e revisar tratamentos, suplementos e estimulantes usados pelo paciente. Informe tudo o que utiliza, incluindo produtos adquiridos sem receita.

Essa revisão ajuda a identificar fatores que podem interferir no ritmo.[5]

Quais exames identificam uma arritmia?

O primeiro passo é uma conversa detalhada. Quando começou? Quanto tempo dura? O início é súbito ou gradual? Acontece em repouso ou no esforço? Há tontura, dor no peito ou desmaio? Essas respostas orientam a investigação.

O eletrocardiograma, ou ECG, registra a atividade elétrica do coração. Quando realizado durante o episódio, pode identificar a arritmia. Um exame normal fora da crise, porém, não exclui uma alteração que ocorre de forma intermitente.[6]

Holter e outros monitores do ritmo

O Holter registra o ritmo durante as atividades habituais. Quando os episódios são pouco frequentes, um período curto pode não captá-los. Nesse caso, o cardiologista pode escolher uma monitorização mais prolongada, conforme a história clínica.[6]

Anotar horários, sintomas e atividades ajuda a relacionar o que você sentiu com o registro. Não é necessário mudar toda a rotina durante o exame, salvo orientação específica.

O objetivo é observar situações representativas do seu dia.

Ecocardiograma e exames de sangue

O ecocardiograma avalia o tamanho das câmaras, as válvulas e a capacidade de bombeamento. Os exames de sangue podem investigar fatores associados e fornecer informações úteis para planejar o cuidado.

Cada exame responde a uma pergunta diferente.[7]

Relógio inteligente detecta fibrilação atrial?

Um alerta de pulso irregular pode ajudar a identificar uma situação que merece avaliação. Entretanto, o alerta automático não confirma fibrilação atrial.

A confirmação exige um registro de ECG de boa qualidade e sua análise por profissional habilitado.[8]

Alguns dispositivos pessoais conseguem registrar um traçado útil. Esse recurso é diferente de uma notificação baseada apenas na análise do pulso: o profissional precisa avaliar o registro elétrico e seu contexto clínico.[8]

Se houver um traçado disponível, salve o arquivo e leve à consulta. Registre também o horário e os sintomas. Evite começar ou interromper qualquer tratamento com base apenas na notificação de um aplicativo.

Palpitação: quando procurar uma emergência?

Procure atendimento imediato se os batimentos alterados vierem acompanhados de dor no peito, desmaio, falta de ar intensa ou piora importante do estado geral. Nessas situações, não espere uma consulta agendada nem tente resolver pelo aplicativo.

Também são sinais de possível AVC:

Fraqueza ou dormência súbita de um lado do corpo.

Boca torta ou assimetria do rosto.

Dificuldade súbita para falar ou compreender.

Perda súbita de visão ou alteração importante do equilíbrio.

Ligue para o SAMU pelo 192. Anote o horário de início dos sintomas. Mesmo que uma alteração neurológica melhore rapidamente, a avaliação é urgente. O atendimento precoce permite investigar a causa e definir as medidas adequadas.

Por que a fibrilação atrial aumenta o risco de AVC?

Na FA, a contração dos átrios perde eficiência e pode favorecer a formação de coágulos. Se um deles atingir uma artéria do cérebro, pode causar um AVC. A prevenção é uma parte central do acompanhamento.[2]

O cardiologista estima esse risco considerando idade, pressão alta, diabetes, insuficiência cardíaca, AVC prévio e outras informações. Também avalia possíveis sangramentos, função renal e condições que podem influenciar a escolha do tratamento.[8]

Quando indicada, a anticoagulação reduz a formação de coágulos. A decisão é individual e precisa ser revista ao longo do tempo.

A melhora das palpitações ou o retorno ao ritmo normal não autoriza a suspensão por conta própria.[8]

Mesmo após uma ablação bem-sucedida, a necessidade de proteção contra AVC depende do risco individual. O sucesso do procedimento não permite interromper automaticamente a anticoagulação.

A decisão segue o risco de AVC e a avaliação durante o acompanhamento.[8]

Quais são os tratamentos para arritmia e fibrilação atrial?

O cuidado busca melhorar sintomas, reduzir complicações e tratar condições associadas. Não existe uma única conduta para todas as pessoas. As opções são discutidas considerando exames, objetivos, preferências e características clínicas.[10]

Controlar a frequência ou recuperar o ritmo

Controlar a frequência significa evitar que o coração bata rápido demais. Controlar o ritmo significa tentar restabelecer e manter um ritmo organizado. As estratégias podem ser combinadas e precisam de acompanhamento para avaliar resposta e segurança.[10]

Em algumas situações, é utilizada a cardioversão elétrica, um procedimento realizado em ambiente assistido para reorganizar o ritmo.

Antes dele, a equipe considera a duração da arritmia e os cuidados necessários para reduzir o risco de coágulos.[10]

Quando a ablação pode ser indicada?

A ablação por cateter atua nas regiões envolvidas na geração ou manutenção da arritmia. Pode ser considerada para pessoas selecionadas, inclusive em fases mais precoces da fibrilação atrial. A indicação depende da avaliação clínica e especializada.[11]

O procedimento pode reduzir episódios e melhorar a qualidade de vida, mas não garante que a arritmia nunca volte. O acompanhamento continua necessário. Outras arritmias podem exigir abordagens diferentes, incluindo dispositivos cardíacos em situações específicas.[10]

Quem tem fibrilação atrial pode fazer exercício?

As recomendações atuais incluem cuidar do peso, controlar a pressão, reduzir o consumo de álcool, parar de fumar e avaliar distúrbios do sono.

Essas medidas complementam o tratamento e ajudam a lidar com fatores que favorecem a FA.[4]

Atividade física pode fazer parte do tratamento. O tipo, a intensidade e a progressão devem considerar sintomas, condicionamento e doenças associadas. Ter fibrilação atrial não significa receber automaticamente uma proibição de se exercitar.[4]

O café também não precisa ser eliminado por todas as pessoas. Se houver relação consistente entre seu consumo e o mal-estar, converse sobre ajustes. Evite generalizar uma experiência individual para todas as causas de palpitação.[11]

Perguntas frequentes sobre arritmia e fibrilação atrial

Fibrilação atrial tem cura?

O tratamento pode controlar os episódios e permitir longos períodos sem arritmia. Mesmo após uma ablação, porém, a fibrilação atrial pode voltar. Por isso, o acompanhamento continua necessário. [10,11]

Posso ter fibrilação atrial sem sentir o coração acelerar?

Sim. Algumas pessoas não apresentam sintomas e outras têm frequência próxima do habitual. A ausência de palpitação não elimina a necessidade de avaliar o risco de AVC. [2,8]

Um Holter normal descarta todas as arritmias?

Não. Se o episódio não ocorreu durante o registro, ele pode não aparecer no exame. A duração da monitorização deve ser escolhida conforme a frequência dos sintomas. [6]

O que anotar antes da consulta por palpitações?

Leve exames anteriores, a lista completa do que utiliza e registros dos episódios. Conte se houve desmaio e se familiares tiveram arritmias ou morte súbita. Informações objetivas ajudam a construir uma avaliação mais precisa.[5]

Você pode anotar três perguntas: qual alteração foi identificada, qual é meu risco e como será o acompanhamento. Compreender essas respostas facilita a participação nas decisões e permite reconhecer quando uma mudança precisa ser comunicada.

Se você apresenta palpitações recorrentes ou já recebeu um diagnóstico de arritmia, uma avaliação individual pode organizar os próximos passos.

O objetivo é esclarecer a causa, discutir opções e estabelecer um plano compatível com sua saúde e rotina.

Referências

1. NHLBI. Arrhythmias Types.

2. American Heart Association. What is Atrial Fibrillation.

3. NHLBI. Arrhythmias Symptoms.

4. European Society of Cardiology. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation.

5. NHLBI. Arrhythmias Causes and Triggers.

6. NHLBI. Arrhythmias Diagnosis.

7. NHLBI. Atrial Fibrillation Diagnosis.

8. Joglar JA et al. 2023 ACC AHA ACCP HRS Guideline for the Diagnosis and Management of Atrial Fibrillation.

9. American Stroke Association. Stroke Symptoms and Warning Signs.

10. NHLBI. Atrial Fibrillation Treatment.

11. American College of Cardiology. Early Rhythm Control Lifestyle Modification and More Tailored Stroke Risk Assessment Are Top Goals in Managing Atrial Fibrillation.

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